Sexta-feira santa, Páscoa e Umbanda.
Há muitos anos como médium e hoje Sacerdote de Umbanda luto, de todas as formas, para que minha religião seja respeitada como tal. Já ?comprei? muitas brigas e ainda ?comprarei? muitas mais se necessário for até o final dos meus dias para este propósito. Somos religião, praticamos única e exclusivamente o bem, não vendemos milagres nem somos donos da verdade. Queremos apenas respeito!
Não falo em nome da Umbanda, mas falo dela, e entendo que esse desejo de respeito vibra na alma de todo adepto desta sagrada religião.
Como dirigente de um terreiro, me coloco a pensar, refletir sobre vários assuntos, e um deles é a páscoa. Nós, seres humanos, somos mais automatizados do que imaginamos. Muitas pessoas falam: ?eu faço o que eu quero da minha vida!?, será?
Agimos de forma automatizada a maioria das vezes. No terreiro é assim. Quantos médiuns não batem cabeça no altar, porque todos batem? Quantos médiuns não giram ao incorporar porque os outros giram, etc.?
O maior desafio que encontramos dentro da religião de Umbanda, são os próprios umbandistas, que muitas vezes de forma mecanizada, não percebem o desserviço que fazem para sua religião.
Quero aqui com este texto, trazer uma reflexão, jamais uma única verdade. Vamos lá!
Você médium de umbanda, comeu peixe na sexta-feira santa? Se sim, porque gosta ou porque todos comem? E se foi porque gosta, precisava ser só neste dia?
Seu terreiro não trabalhou da quaresma?
Vai comprar ovos de páscoa para seus filhos e netos?
Refletindo sobre isso, fiz alguns estudos, que logicamente, podem ter equívocos nas informações, mas não exime a reflexão. Vamos a eles:
A grande maioria dos católicos creem piamente que a Páscoa é a celebração da ressurreição de Cristo, e nada mais do que isso. Bem, o fato é que a celebração pascal já existia muito antes da encarnação de Jesus, o Cristo. Sim, já existia! Dentre várias pesquisas feitas, encontrei que o povo hebreu, desde sua libertação do Egito, onde foram escravizados por mais de 400 anos, tem na páscoa a data da sua liberdade, evento este que teve liderança de Moisés, o maior mago do antigo testamento. Segundo conta a bíblia, Deus, através de Moisés, lança no Egito, uma praga que mataria todos os filhos primogênitos. Para que tal praga não se abatesse sobre os hebreus, eles teriam que sacrificar um cordeiro e, o seu sangue deveria ser passado nas ombreiras das portas pelo lado de fora, ?selando? as casas para a praga não adentrar. O cordeiro deveria ser assado de uma forma específica e servido como última ceia no Egito, pois no dia seguinte eles partiriam rumo à terra prometida.
O povo Hebreu ficou 40 anos no deserto até Josué os conduzir a ?Terra Santa?, e dali em diante a páscoa é celebrada com uma ritualística específica pelos judeus. A etimologia da palavra páscoa vem de PESSACH, que em hebreu significa ?passar por cima?. A praga de Deus no Egito ?passou por cima? sem atingir o povo escolhido.
Quarenta foram os dias do dilúvio bíblico e 40 foram os dias que Moisés ficou no Monte Sinai com Deus. Após sua decida, o povo hebreu estava cultuando um bezerro de ouro, e ali, a mando do próprio Deus, mais de três mil homens e mulheres foram mortos por estarem fazendo um culto pagão.
Jesus Cristo era judeu, e a última ceia, nada mais foi do que a celebração da páscoa, sabia? Sim, ele era judeu, e ali com seus apóstolos aconteceu à comemoração desta data importante para o seu povo, intitulada posteriormente como a Santa Ceia.
A quaresma, que antecede essa comemoração, consiste em quarenta dias de jejum, isso mesmo, jejum, e orações. O número 40 aparece nestas três ocasiões.
Você católico que está lendo esse texto, faz quaresma, ou só come peixe na sexta-feira santa como um bom fiel e devoto? Pertencer a uma religião consiste em seguir religiosamente sua doutrina, preceitos e dogmas, caso contrário, você é um grande hipócrita, e tenho dito!
Jesus Cristo seria o último cordeiro de Deus a ser sacrificado, e após isso, tem-se a visão católica da páscoa, onde não se sacrifica mais o cordeiro, mas os judeus, que não são católicos, até hoje o fazem.
Muitos umbandistas são contra o abate religioso, o sacrifício animal, mas não se dão por conta que o Natal, é um rito religioso, pois é uma data do calendário católico, bem como a páscoa e quaresma.
Em suas ceias natalinas, degustam um belo peru. Na sexta-feira santa, comem peixe.
Ninguém se deu por conta que então o abate religioso também é praticado pelos católicos? Ou não é?
Se é tradição que o peru e o peixe sejam comidos nestas datas, eles precisam ser abatidos para isso.
Embora, hoje em dia, as pessoas comprem o animal morto no mercado, alguém o matou, e só o fez para porque alguém compra e come, ou não?
Bom, mudando de cenário, nós vamos até a Alemanha, onde a páscoa tem outra conotação.
Muitos povos antigos comemoravam a chegada da primavera com alguma celebração, pois antes dela tinha-se o inverno, período de frio, tristeza e morte. A primavera seria a renovação, pois traz junto com ela o sol, as flores, a vida.
Na mitologia anglo saxônica e germânica, existia um culto pagão à deusa da fertilidade, EOSTRE, na chegada da primavera. Páscoa em inglês é EASTER. Eostre/Easter, alguma semelhança?
A figura dessa deusa era uma mulher camponesa, que trazia uma cesta com ovos e uma lebre em seu ombro. Aí está a relação da páscoa com o coelhinho e os ovos. O coelho é símbolo de fertilidade, e os ovos símbolo da vida, concepção. Os ovos de galinha eram pintados e distribuídos em alusão a esta festa.
A igreja católica demonizou todos os cultos pagãos, no entanto de obrigou a adaptar estas datas comemorativas, pois as pessoas seguiam celebrando seus deuses. A Saturnália, rito pagão romano, virou o natal.
A páscoa dos hebreus virou a ressurreição de cristo. O dia de todos os santos só surge em virtude do dia dos mortos, celebração pagã.
E falando em santos, a própria santidade de Maria é instituída, para substituir as Deusas pagãs. Niké, deusa Grega da Vitória é substituída por Santa Vitória. De Aglaia, que quer dizer, glória em grego, surge Nossa Senhora da Glória e Maria, mãe de Jesus, torna-se Maria, mãe de Deus.
Yeshua, um judeu revolucionários, que vem a ser chamado posteriormente de Jejus, torna-se Deus com o advindo da Igreja Católica Apostólica Romana.
Agora, já contextualizado a relação da páscoa judaica, com a páscoa cristã, o coelhinho e os ovos, faço uma afirmação parafraseando mestre Rubens Saraceni: ?nos últimos sete mil anos, em religião nada de novo se cria?, apenas se transforma.
Chego ao momento que convido os irmãos umbandistas a refletirem.
Ao longo dos anos, quando pergunto a irmãos umbandistas se na sexta-feira santa vão comer carne de peixe ou carne vermelha, a resposta na maioria das vezes é a mesma, parece que é um ?Ctrl c? e ?Ctrl v?.
- ?Por mim eu comeria carne normal, mas como vou almoçar com a família, e eles são católicos, então eu respeito e como peixe junto. Mas é só por isso?.
O respeito realmente entre diferentes religiões deve sempre prevalecer, uma não é melhor do que a outra, porém irmão (ã) umbandista que até aqui chegou nesta leitura, pergunto: quando você está de preceito para um amaci ou outro ritual de umbanda, mesmo no dia da gira, que recomenda-se que não devemos comer carne, de nenhuma espécie, seus familiares te respeitam e jejuam contigo, ou apenas você se priva da carne? Caso seja seu aniversário, e você estiver de preceito, todos vão abster-se daquele suculento churrasco com aquela saborosa cerveja gelada, ou só você vai para respeita-los? No dia do aniversário da sua religião, eles te parabenizam? Aliás, você comemora o dia nacional da umbanda? Até quando umbandistas vão ter que batizar seus filhos um dia no terreiro e outro dia na igreja, porque a família não vai ao terreiro?
Entendo que respeito deve partir de todos os lados, e não apenas de um. Até quando nós respeitaremos sem sermos respeitados? Se eles são católicos (o que a maioria não é, pois depois do batismo nunca mais foram à igreja e tão pouco seguem os preceitos que expus acima) e você é umbandista, por que só você e sempre você tem que ceder, entender, respeitar?
Sai de cima do muro meu irmão (ã)!
Como dito antes, não quero impor verdade, mas sim trazer reflexão.
Quando que nossas tradições de Umbanda serão respeitadas pelos nossos e até quando seguiremos outras tradições sem sentido para nossa fé?
Eu, Marcus Siqueira, médium já a 22 anos, sacerdote de umbanda a 8 anos, iniciado em Ifá, no Culto Tradicional Yoruba, como carne vermelha na sexta-feira santa, que para mim não é santa, pois santo é o dia da gira no terreiro. Meus filhos serão batizados no terreiro, e quem não quiser ir, lamento, pois perderá lindas celebrações onde o cheiro das ervas, o toque do tambor, a fumaça da defumação e a benção dos guias espirituais em terra e dos orixás no astral, trazem todo um encanto, sem igual. Meu funeral também será ao toque do tambor, cantos, palmas e defumação NO TERREIRO, aqueles amigos que não quiserem se despedir de mim, sem despedida ficarão.
Assim levo minha vida, falo, faço e mostro umbanda para todos, EU SOU UMBANDA, sem medo, sem vergonha, sem hipocrisia. Como você faz a sua umbanda?
Meu fraterno saravá!
Marcus Siqueira